O último Novembro.



Ainda lembro de quando decidi começar esse blog. Era uma tarde de domingo, inicio do segundo semestre de 2013. Muitas mudanças tinham acontecido, eu estava lidando pela primeira vez com as responsabilidades de um emprego, aprendendo a me virar sem meus pais no centro de São Paulo, conhecendo pessoas na minha nova escola - e notando quem realmente eram meus amigos na outra - e sentindo o peso de carregar tudo isso. Criei o endereço no Blogger e esperei mais algumas semanas pra finalmente começar a usar. Demorei pra encontrar um nome, mas encontrei, decidi chamá-lo de Novembro Inconstante. Novembro, por ser o mês em que há alguns anos as coisas tendiam a simplesmente acontecer sem que eu as esperasse; Inconstante, por ser uma característica muito forte na minha própria personalidade, não sou muito de raízes, gosto de pensar em como tudo pode ser além, e como esperado, no último ano notei mais uma mudança: aqui não era mais a minha casa.

Quando entrava aqui sempre escrevia algo novo, e a maioria desses textos foram perdidos, porque não me sentia a vontade para expor aqueles pensamentos, não sentia que seria útil para mais alguém. Criei uma newsletter, na qual ainda publico, e percebi que lá eu conseguia me abrir com facilidade. Eu gosto de receber as respostas direto na caixa de entrada do meu e-mail, de compartilhar coisas com pessoas que nunca vi na vida, mas que me contam suas experiências em uma espécie de confiança mútua via internet, gosto de terminar a linha de raciocínio com um "Don't forget to take a breath, com carinho, Tati", porque eu adoraria saber que alguém que nem me conhece está me desejando um pouquinho de ar para respirar sempre que necessário acompanhado de carinho, de atenção, e saber que posso estar passando isso para quem me lê é confortável. Olhar para a página inicial do Tinyletter e sempre rir com o nome que dei, "Trupica, mas não cai" me traz vontade de continuar a escrever ali, porque é um resumo exato do que eu pretendo com aqueles e-mails: falar dos meus tropeços que ainda não me derrubaram, mas que eu vou levando.

Se a newsletter estava se tornando uma boa fuga, por outro lado, abrir o Blogger me causava ansiedade. Eu preferia falar de séries, de filmes, coisas que todo mundo vê, do que mostrar a minha maneira de ver tudo. Achava egoísta pensar que alguém se importava, e esse foi meu maior erro. Lá em 2013, quando comecei com tudo isso, a ideia central nunca foi agradar quem me visitasse. Se eu encontrasse pelo menos uma pessoa que se identificasse com algo, tava no lucro, mas ter reconhecimento por textos que escrevo quando tudo é grande demais para carregar definitivamente não era o propósito. Fiquei semanas encarando a página inicial do blog, pensando se tinha acabado, se eu não conseguiria mais escrever como antes, até perceber que o problema estava no nome. A inconstância tinha acabado, e Novembro não era mais uma marca que eu pretendia carregar pra lá e pra cá. 

Reli todo meu arquivo, reparei em todas as pessoas que conheci - sendo elas próximas ou uma espécie de vizinho da internet em que troco alguns comentários sobre a vida e admiro de longe - por ter coragem de usar esse espaço em branco como uma extensão dos meus pensamentos (AmandaAna, BeaBeatrizFelipe, Manu, Mia, Michas, Natália) e vi que durante três anos, tudo o que fiz foi transformar coisas banais do meu cotidiano em extensões do meu mundo, foi, como diz o ditado, pegar os limões que a vida me dava e transformar em limonada. E se o que eu preciso pra continuar é me identificar com o nome, que seja esse.

Foram 56 posts de "Só acontece comigo", conversas sobre séries, filmes, livros e música, com algumas teorias distorcidas pela minha maneira de enxergar o mundo. Foram muitos textos sensíveis cujos comentários me acolheram, as amizades virtuais feitas e a imensa ajuda em descobrir dia após dia quem eu quero ser (e como chegar lá), mas para reconstruir é preciso primeiro destruir, então que assim seja.

Em breve a url vai ser trocada por "limaoquenada.blogspot" (tentei colocar só limonada, MAS JÁ PENSARAM NISSO ANTES, NÃO É MESMO?) e o Novembro Inconstante vai se tornar só uma url de direcionamento, os arquivos serão os mesmos, o layout - como vocês podem perceber - também, e eu realmente espero que a única coisa destruída seja esse peso que eu esteva sentindo, porque vai ser essencial ter quem sempre me acompanhou pra espremer tantos limões pelos anos à frente.

Que a gente possa se reinventar, sempre. Até o próximo post!

(Aqui eu não escrevo o com carinho no rodapé, mas imagino que vocês o sintam daí.)

Cortar, suturar, fechar.




Quando escolhi minha (futura) profissão foi por ter facilidade. Facilidade pra manter a calma - minha e dos meus - em situações difíceis, pra dar notícias ruins, pra ver o outro escancarado, pra lidar com o fim da vida sem que isso se tornasse uma memória repetitiva em mim. Eu a escolhi por saber que a vida começa e acaba, e eu poderia ajudar a prolonga-la, mas nunca a eterniza-la, pelo menos não de uma maneira física.

O corte surgiu na segunda-feira, durante a manhã. Notícias ruins chegam sempre, de forma apropriada ou não, e apesar da sua idade, saber da queda não me pareceu naquele momento tão grave. Escutei sua voz ao fundo da ligação, sabia que iriam cuidar de você e naquela conversa em que recebi a notícia, repeti três vezes ou mais que tudo ficaria bem, era só ter paciência e amor. Paciência pra lidar com sua fragilidade, amor pra te sustentar, já que sozinho seria impossível. 

Entre a terça e a quarta o corte sangrava insistentemente. Como todo organismo, o meu se preparou para cicatrizar, mas não completamente. O seu, por outro lado, estabeleceu sua hora e se tornou um corte seco.

Lembro de quando te contei sobre o que definiria meu futuro, e sentado no sofá de frente para o meu, entre garfadas na pizza e conversas, você disse um "Que oficio bom esse que você escolheu, Catiane!" e agora eu sinto muito por justo essa escolha ter falhado com você. Sinto que te devo isso, te devo pelo médico que não soube te ajudar quando esse foi o único juramento feito por ele, sinto que preciso ter mais força ainda para continuar e ser além, ser o que faltou pra você naquela quarta às 12:40.

Você nunca decorou minha idade, eu tinha 10 e sempre precisava dizer que não, não estava mais com 4 anos, mas na penúltima vez que nos vimos, de alguma forma você sabia que eu tinha crescido, segurou minhas mãos e disse que eu era uma moça bonita (limpinha, cheirosa e educada) e que era grande apesar da minha pouca idade. Se eu pudesse trocar meu risinho sem graça por algo, te diria que você era grandioso, muito além de todas as medidas já criadas.

O meu nome quando dito por você se transformava em uma mistura com o nome da minha mãe, o frescor da geladeira era frescura da geladeira, o apresentador rico da TV só vivia de mortadela e por isso estava tão gordo, o silêncio era sempre oportunidade para cantar seu "tchetchetche" e andar de carro com meu pai era perigoso demais.

Hoje eu tenho uma ferida em cicatrização, mas lá na frente, sempre que eu olhar para ela e ver onde cheguei, vou saber quem quero ser por tê-la. Se o corte aconteceu, cabe a mim suturá-lo e fechá-lo.

Em memória de Elias e seus 89 anos de grandiosidade.